segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Marcos Aurélio no Danúbio

Ano de 166

Os Primeiros Choques

Consulado de Quinto Servílio e Lúcio Fufídio Póllio

Sem que se possa precisar a data exata, em algum momento do ano 166 começaram os ataques. Hermunduros, marcomanos e quados – provavelmente também naristos e victumalos – lançaram as primeiras incursões ao longo de toda a linha fronteiriça do Danúbio. Em setembro daquele ano, os marcomanos e seus aliados lançam os primeiros ataques. As guarnições militares, em menor número, situados ao longo do rio, nada puderam fazer frente a tamanha ofensiva.

Marco Aurélio, mais do que consciente do perigo representado pelas agressões, formou imediatamente um exército de defesa capaz de fazer frente às hordas invasoras. Recorreu a grande parte da guarda pretoriana, dez coortes – cada uma com aproximadamente 1000 homens – formadas pelas melhores tropas do império -, que se uniram às coortes urbanas (4 coortes de 480 homens) e as unidades de vigia (7 coortes de 480 homens), todas a serviço de Roma. A estas se somaram ainda as frotas da Classe Pretoriana Misenense e Classe Pretoriana Ravennatis, totalizando 20.000 homens, comandados pelo prefeito do pretório, I. Fúrio Victorino. Concomitantemente, o imperador continuava reunindo tropas e organizando um contra-ataque generalizado.


Ano 167

Consulado de Lúcio Vero e Marco Umídio Quadrato

T. Fúrio Victorino foi derrotado e morto por marcomanos na Cisalpina, e seu exército quase totalmente destruído. Os invasores rapidamente começaram a assediar a cidade de Aquiléia. C. Vetio Sabiniano, legado da Legião XIV Gemina, chega à Roma, comandando uma série de unidades menores, procedentes da Panônia. Marco, que deixa na capital parte das tropas, marcha para o norte com Vero. Comanda o resto das forças que se mantinham na cidade, assim como parte dos reforços recebidos, em novas unidades criadas com esforços de escravos, gladiadores e presidiários. Faz com que o exército da Panônia avance simultaneamente desde o Danúbio contra a retaguarda inimiga, alinhando forças com 4 legiões – I Adiutrix, X Gemina, XIV Gemina e II Adiutrix – e um bom número de Forças Auxiliares, comandados pelos Governadores da Panônia Superior e Inferior, Júlio Bassio e T. Cláudio Pompeiano.





Marcomanos e victuales se retiram do norte, escapam do cerco que se formava sobre eles. Ocupavam seguidamente parte do território da Raetia e Noricum, onde se estabeleceram e aguardavam os acontecimentos. Os quados, fazendo um gesto de apaziguamento, fizeram saber a César que os culpados pelo levante e ataque aos territórios romanos haviam sido castigados, se retiraram e nomeariam um novo rei, agora que o seu casualmente acabava de falecer.





Ano 168

Consulado de L. Venuleio Aproniano Octavio e L. Sérgio Paulo


Marco Aurélio não se levava a enganos. Invernando na região de Aquiléia, se prepara para a campanha de 168. O chefe de sua cavalaria, Helvídeo Pertinax, legado da Legião I Adiutrix, é enviado para expulsar os marcomanos e victumales das províncias da Rétia e Nórico.

Marco, já em Carnuto, na Panônia, se dedica a reorganizar as defesas romanas. No mês de maio chegam novas notícias de ataques bárbaros. A província da Dácia fora envadida em massa por uma coalisão de dácios que escaparam da conquista romana nos tempos de Trajano, costobocos e sármatas.





Formam-se duas novas legiões: II Pia e III Concors. Posteriormente, passaram a ser chamadas, respectivamente, II e III Itálicas, pelo núcleo itálico de seus componentes. Tais unidades foram formadas por escravos, gladiadores e homens livres que se alistavam expontaneamente nos meses precedentes para combater a ameaça germana. Essas legiões se ocuparam da defesa da Itália, sendo nomeado, possivelmente, Q. Antistio Advento como Legatus Augusti at Praenturam Italiae et Alpium. Advento fora ex-consul e distinto general na guerra pártica e ficara com esse cargo de 168 a 171, comandando uma nova região militar criada nos Alpes, em sua vertente oriental, controlando as vias de comunicação entre Itália e as fronteiras do Danúbio, uma segunda linha de defesa além do limes. Para tal efeito, Advento instalou a II Itálica em Celeia e a III Itálica, em Tridentum, na Cisalpina.


Ano 169

Ano 169: Consulado de Q. Pompeio Senecio Roscio Murena Coelio e M. Aquilio P. Coelio Apolinário

Dácia, primavera de 169. As pressões bárbaras ameaçam seriamente a segurança da província. É enviada, como reforço, a Legião V Macedônia para a cidade de Potaissa.

M.Claudio Fronto, governador da Mesia Superior, é empossado com o título de Legatus Augusti pro Praetore Trium Daciarum et Moesiae Superior e enviado à Dácia para coordenar as operações defensivas, sendo derrotado e morto. A cidade de Samirzegetusa fora ameaçada por invasores, sendo amuralhada. Fruto desta momentânea derrota romana, sármatas e costobocos se lançaram sobre a Mésia Inferior, conseguindo atravessar o debilitado limes.





Durante o período inicial do conflito, 166/169, se dá como legado da XIII Gemina a Terentio Pudens Vetediano, sendo sucedido por Júlio Pompilio T. Vivio Laevilo Piso Bereniciano, que comanda esta unidade até 173.

Sexto Calpurnio Agrícola, ex-governador da Mesia Inferior, novo governador da Dácia, que recebeu apoio e coordenou o movimento das legiões da Dácia e Mésia Superior, pôde, finalmente, expulsar os invasores e devolver a calma às fronteiras.

Pertinax, por sua vez, e voltando com a guerra contra Marcomanos e Victuales na Rétia e Nórico, consegue expulsar os germanos das províncias.

Com esses felizes sucessos, Vero decide regressar a Roma, sendo cortezmente acompanhado por Marco. Durante o caminho, Vero morre em decorrência de um ataque de apoplexia. A ausência de Marco, que retorna à Roma para as exéquias do irmão, impulsiona os bárbaros a realizar novas incurssões por territórios romano.

No mesmo ano de 169, 6000 longobardos aproveitaram a ausência do imperador e atravessaram o Danúbio. A cavalaria de Vindex, apoiada pelas legiões de Candido, foi totalmente destruída. Um contingente de germanos haviam se infiltrado novamente na Itália, por onde o imperador, através de seus generais Pertinax – legiões II e III Itálicas – e Quadrato – I e II Adiutrix -, devidamente reforçados pela II Trajana, com base no Egito, conquista a vitória. É nesse momento que as legiões, influenciadas por este último e resonado triunfo, solicitam ao imperador um aumento do soldo, aumento que Marco recusa.

Por medo da ofensiva romana, Belomário, rei dos marcomanos, e Jalio Bassio, goernador da Panônia, acordam um cessar de hostilidades, o que viabilizou aos germanos seu regresso ao outro lado do rio.

Marco Aurélio se dava conta agora da necessidade de por em ordem a fronteira no Danúbio: a situação era certamente grave. A necessidade de manter intacto o prestígio romano, certamente tocado, e debilitar o renovado impulso dos povos fronteiriços o leva a dar uma forte resposta às incursões germanas. É o começo das chamadas Guerras Marcomanas.

:: Extraído de www.satrapa1.com
Tradução: Breno de Magalhães Bastos


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3 comentários:

Breno Lucano disse...

Agradecemos pela minha tradução sobre a primeira fase da guerra marcomana. Esse texto foi uma das bases teóricas utilizadas para dois de meus artigos: um sobre a biografia de Marco, e o outro sobre suas Meditações.


Breno Bastos
Gerente do Portal Veritas

mario jorge disse...

Breno, sou apaixonado pela historia romana , existe alguma coleção de livros relatando ano a ano?

mario@soudim.com.br

Breno disse...

Mário Jorge, você conseguirá algumas informações em Dion Cássio. História Augusta também é um documento importante, onde o autor precisou de dois capítulos para discorrer sobre Marco. Mas, quanto aos anos, você encontrará discordâncias. Eles não fornecem anos precisos e é muito comum que não coincidam com os períodos de outras fontes, quando em comparação.