segunda-feira, 16 de novembro de 2009

A »Cortina de Ferro« da Antiguidade

Quando uma fenda atravessa a Europa


Ainda hoje os 120 quilômetros de Hadrianswall - a Muralha
de Adriano -, cortam a Grã-Bretanha. Durante 300 anos,
suas pedras marcaram as fronteiras setentrionais do Império
Romano - um baluarte contra guerreiros da Escócia.


GERMÂNIA: O QUE ACONTECEU JUNTO ÀS TROPAS
DA FRONTEIRA NO LIMES


Em noites assim, Primius Auso sabe, é preciso prestar atenção redobrada. A estreita foice da Lua aparece apenas de vez em quando atrás das nuvens baixas, e a chuva batendo nas tabuinhas do telhado cobre qualquer outro ruído. Em companhia de seu camarada, o sargento do exército romano está na galeria de sua torre de vigia; diante dele se erguem as cumeadas do Taunus, uma cadeia montanhosa no território onde hoje é a Alemanha.

Primius Auso apura os ouvidos na escuridão. Busca ouvir algum som para além da civilização, algo que venha da terra dos bárbaros.

Ele sabe que não está sozinho. No limiar do Império, a capacidade de percepção dos romanos é altamente desenvolvida. Apenas em sua fronteira terrestre germânica, os romanos erigiram, no século 2 depois de Cristo, um cordão de castra (fortificações para acampamentos militares) com 550 quilômetros de comprimento - em alguns lugares, totalmente reta -, guardado por 30 mil soldados. Entre as localidades de Rheinbrohl, no Reno, e Eining, no Danúbio, há mais de 900 torres de vigia de madeira e pedras, sempre em distâncias visíveis, sempre construídas do mesmo modo.

No térreo da torre, inacessível a quem está do lado de fora, encontram-se armazenados, em ânforas de argila, trigo e azeite. No segundo andar, cuja porta só se alcança por uma escada de mão, está o alojamento da guarnição, de quatro ou cinco homens. Eles têm que manter a posição por um verão inteiro, ou ao longo de um inverno. Em um chiqueiro ao lado grunhem porcos; e pegado a ele há fornos. Em caso de perigo, Primius Auso e seus camaradas podem levantar a escada e se refugiar na plataforma mais alta da torre, de dez metros de altura. É ali que fica o posto de vigia, dotado de armas, tochas, cornetas. Em frente à torre corre uma paliçada feita de troncos de carvalho cortados pela metade: a proteção mais externa do Império.

Nesse dia ela amanhece ferida.

Primius Auso constata quando o dia amanhece: sob a escuridão da noite chuvosa, os bárbaros arrancaram pranchões que estavam presos às paliçadas. As tribos da parte norte e desocupada da Germânia sabem perfeitamente que há bastante para saquear ao sul da fronteira. Apenas uns quilômetros depois das torres de vigia estão as primeiras fazendas romanas dos decumates agri - os campos decumanos conquistados.


Nove mil soldados vigiavam a muralha de 4,5 metros de altura,
entre romanos e escoceses. Os legionários, porém, não tinham
muito medo do inimigo: eles zombavam dos bárbaros além
do Limes, chamando-os de brittunculi ou pequenos britânicos.

Colonizadores recém-chegados da Gália e de outras regiões do Império, reconstruíram os antigos vilarejos germânicos que haviam sido incendiados, após um século de guerras. Imigrantes e colonos forçados a se assentar reavivaram as terras, e agora cultivam novamente os campos pisoteados. Na proteção da Pax Romana garantida por Roma nas províncias, a planície de Wetterau floresceu de novo. Os camponeses fornecem carne e verduras às legiões junto ao Reno e às tropas que guarnecem as fortificações estabelecidas junto ao Limes. São elas que protegem essa mais nova ramificação da civilização em direção ao Norte - e também elas devem caçar intrusos.

Primius Auso dá o alarme com a corneta. A mensagem é passada de torre para torre, até alcançar o acampamento militar mais próximo: um castum (fortificação), cujo nome romano ninguém mais sabe - e que hoje é conhecido como "Saalburg".

Lá está estacionada uma coorte (subdivisão da legião romana) com 600 soldados. Seu comandante, Lucius Sextius Victor, não deve ter hesitado em colocar uns 30 homens de sua cavalaria no encalço dos possíveis invasores.

Enquanto Auso conserta a paliçada com os seus camaradas, Victor transmite o alerta aos redutos fortificados mais próximos: um na atual Butzbach, onde permanece de serviço uma divisão de cavaleiros de Cyrenaica (atual Líbia), e outra em Friedberg, acampamento de 500 arqueiros montados, vindos de Damasco. Os germânicos provenientes do Barbaricum não ocupado devem ser capturados. Eles não podem duvidar da capacidade defensiva de Roma; não podem interpretar que a potência mundial, depois de ter perdido três legiões completas na batalha de Varus - no ano 9 d. C. -, vá se contentar apenas com o Sul e o Oeste da terra habitada pelas tribos germânicas.
Mesmo que os soldados não consigam localizar os saqueadores ainda nesse dia, eles serão capturados quando tentarem cruzar a fronteira na volta, carregando a pilhagem. E talvez, então, soldados romanos atravessem a muralha para exercitar uma desforra nas aldeias desses intrusos - que danificaram a "paz romana" junto à torre sob a responsabilidade de Primius Auso e, com isso, a maior obra arquitetônica da Europa.

Trata-se, nesse caso, de um dos sistemas de controle de fronteiras mais dispendioso do mundo. Os romanos o montaram para separar - de forma bem visível a todos - a sua civilização do atraso dos vizinhos ao norte. Desde a Escócia até o Mar Negro se estendem muralhas e fossos, muros e as fortificações do Limes. Monumento, a um só tempo, do poder e do medo. O poderio da Antiguidade se dilatou demais. Com muita dificuldade, ele consegue ainda administrar seu imenso império. Para avançar mais ainda, falta-lhe força. Roma, então, se entrincheirou.

Na verdade, há muito que historiadores e arqueólogos deixaram de considerar o Limes uma instalação de defesa fixa, de eficácia comparável à Muralha da China ou à Linha Maginot francesa, erguida no século 20. Ele funciona mais como uma simples membrana estendida entre dois mundos, a fim de proporcionar um contraste bem dosado: aqui ordem, disciplina e estradas pavimentadas; lá, trilhas tortuosas pela mata e costumes arcaicos. No meio de ambos: uma fronteira policial e econômica. Uma zona de controle, de intimação - mas que, simultaneamente, provoca a inveja e admiração dos germânicos pelos estrangeiros cultos. E o contato fronteiriço entre essas duas culturas, que não poderiam ser mais estranhas entre si - embora nada as separe além de uma trincheira e um muro.

Desde que o Limes foi fortificado, sob os imperadores Adriano (117-138 d.C.) e Antonio Pio (138 - 161 d. C.), surgiu ao sul da muralha fronteiriça um espaço de próspera atividade econômica. Investidores extraem chumbo, prata, ferro e sal. Cidades são fundadas, ruas pavimentadas. Com os romanos chegam para a Alemanha do sul as construções em pedra e o torno de oleiro, a água encanada e rede de esgotos, os artesãos que trabalham com metais - e uma forma totalmente nova de vida social. Uma rotina que se desenrola em tavernas, teatros, termas e nos locais de reunião franqueados a todos os cidadãos: os fóruns das cidades.

São cultivados tipos de cereais mais rentáveis, introduzidas raças de gado e cavalo maiores. A viticultura se estende pelas regiões do Reno, Mosel e Neckar. Todos os tipos de frutos que conhecemos hoje, como cerejas ou peras, são colhidos; e da mesma forma o aspargo, o salsão e a acelga, os castanheiros e nogueiras. Até o final do domínio dos romanos, o número de plantas comestíveis no sul da Germânia irá se duplicar.


Fortificação Vindolanda (Muralha de Adriano)

Tabuinhas escritas com tinta testemunham o dia-a-dia
das tropas na Muralha de Adriano: desde o desejo de
promoção até um agradecimento por meias quentes.

Um germânico do Norte - chamemo-lo de Segimer - que solicita permissão para penetrar uma das passagens do Limes, é, nesse mundo, antes estorvo do que ganho. Ele quase não fala latim, e nem seu próprio idioma sabe escrever. Não possui dinheiro. Baseado em quê saberá se comportar?

Mas talvez Segimer tenha sorte, e encontre um guarda que fale sua língua. E que também saiba de algum fazendeiro das vizinhanças que esteja procurando trabalhadores rurais; ou de um proprietário de mina que ande atrás de um homem forte para extrair chumbo, ou de algum exército necessitado de novos recrutas. Neste último caso Segimer poderia viajar pelo mundo, receber bom soldo e - caso sobreviva aos 25 anos de serviço militar - até a cidadania romana.

Nas principais passagens para o Barbaricum foram instalados postos alfandegários. Soldados com conhecimento da parte norte do país são úteis para os romanos. Eles aplicam as taxas convencionadas para o tráfego das mercadorias e, frequentemente, devem também apaziguar brigas, além de caçar contrabandistas.

Superinius Lectus, da tribo germânica dos Ubis, é um deles. Das inscrições preservadas sabemos de sua transferência para o posto alfandegário na atual Obernburg, região do Meno. Ele recebe soldo dobrado, mas porque precisará se acostumar a ser transferido a cada seis meses - um remanejamento criado para prevenir tentativas de suborno por parte de comerciantes locais.

Lectus cuida principalmente das regras para exportação. O Império proíbe a venda de armas e cavalos nos países bárbaros. Exatamente por essa razão, essas mercadorias atingem ali os melhores preços - muitas vezes em troca de escravos. Os fornecimentos ilegais são despachados através dos rios, isentos de paliçadas ou muros.

Contra as balsas e pontões rudimentares dos contrabandistas, Lectus utiliza barcos de patrulha ligeiros, de 16 metros de comprimento e tripulação de 20 legionários - embarcações que, com a ajuda de uma vela redonda, atingem a velocidade de seis nós.

São missões perigosas. Os comerciantes que trabalham na ilegalidade sabem que, se forem pegos, serão, a título de castigo, enviados para as pedreiras. Eles se defendem desesperadamente para não serem presos, ainda mais por um descendente de uma tribo germânica - que se desviou de sua origem, e há muito tempo se integrou à cultura das tropas de ocupação romanas.


Fortificação Vindolanda (Muralha de Adriano)

As legiões de Roma eram formações constituídas por diferentes povos.
Na fortificação de Vindolanda, por exemplo, serviam soldados da
Hungria e dos Países Baixos. Arqueólogos continuam a pesquisar
como os soldados viviam no serviço estrangeiro do Império.


Rough Castle (Muralha de Antonino)

Armadilhas de bárbaros? Terapia ocupacional dos
legionários? Provavelmente, os buracos junto ao Rough
Castle deviam representar um obstáculo aos atacantes.

Superinius Lectus é grato por ter sobrevivido a seu serviço em Obernburg sem grandes ferimentos. Ele oferece a Júpiter, o maior dos deuses romanos, um altar que traz gravado o símbolo de sua unidade, um bode com rabo de peixe. Este é, enfim, o orgulho do ubi do Reno: ser legionário, guarda da fronteira e cidadão romano.

Histórias de sucesso como essas atraem de forma mágica a juventude germânica para o mundo promissor ao sul do Limes.

Nas vici, colônias que se formam ao redor das fortificações, eles podem admirar, como visitantes, as corridas de bigas, as lutas na arena, as apresentações teatrais e os desfiles daquele exército que conquistou todo o mundo conhecido. Os jovens germânicos experimentam temperos nunca saboreados, como pimenta e coentro, e bebem um vinho bem mais saboroso que o seu hidromel. Eles só não podem ficar.

Metade dos habitantes dos vilarejos do norte, até tribos inteiras pedem permissão para ali se assentar. Em geral sem sucesso, pois Roma só aceita grupos maiores quando, por exemplo, a peste dizimou uma população quase toda; ou quando uma tribo se oferece para vigiar a fronteira. Quase nada muda no modo de vida das tribos ao norte do Limes, quando elas se submetem à Pax Romana.

Para os romanos estabelecidos no Reno, os germânicos não têm muito a oferecer além de madeira para a construção de casas e navios e para o aquecimento das termas. Somente os têxteis germânicos são verdadeiramente cobiçados - especialmente pelas mulheres, por causa do design inusitado, que serve de acessório exótico à túnica. Entre os homens, as razões são de ordem prática: cada vez mais os romanos reconhecem as vantagens das calças bárbaras.

Na direção contrária, são principalmente os presentes dos romanos aos chefes das tribos germânicas que cruzam o Limes. E isso ainda sai mais barato do que ficar capturando saqueadores.

Raramente ideias ultrapassam a muralha junto com as mercadorias. Mesmo lá, onde os germânicos "livres" poderiam facilmente tirar proveito das conquistas romanas, impera a ignorância. Na região da província romana, ninguém enfia uma noz ou uma castanha no bolso, para plantá- la no outro lado da fronteira.


Da Escócia até o Mar Negro, legionários construíram, no
século 2 depois de Cristo, uma fronteira através do continente.
Ela apartava o Imperium, no Sul, do "Barbaricum", no Norte - até
que, no século 5, essa linha de separação tornou-se insustentável.

Quase ninguém copia os fornos de tijolos dos romanos, ou seus tornos de oleiro. Tudo permanece como era - com algumas exceções.
Com o passar das décadas, muitos germânicos se conscientizam, por exemplo, de que não é sinal de covardia usar na batalha o elmo e uma couraça, como os romanos. Em algumas localidades, parece que camponeses germânicos também importaram e criaram as raças de gado romano, mais encorpado, talvez para vender a carne no mercado de grande poder aquisitivo ao sul do Limes.


2ª Parte -->

2 comentários:

Pedro Alves disse...

imperio romano muito legal esse site gosto e tenho muito admiração pela cultura romana parabens.

ar condicionado automotivo sp

Rocio disse...

Acho que é totalmente surpreendente, e como eu acho que este lugar deve ter muito mais que o homem não descobriu ainda porque eu sempre disse que eu ia a pé em todo o país, desde que ele pode pegar um aluguel de carros nas principais cidades do país