segunda-feira, 16 de novembro de 2009

A »Cortina de Ferro« da Antiguidade

Nesse comércio com o sul os germânicos são pagos com vidro ou trabalhos artesanais. O soldo dos soldados da fronteira - moedas de cobre e latão - é despachado pela administração militar para as guarnições em caixas de madeira de 150 kg cada, que atravessam os Alpes. Os germânicos da tribo dos "catos" (chatti, em latim), que até então só conhecem o escambo, negociam tanto com seus velhos inimigos, que, provavelmente, já começam a fazer pagamentos entre si usando a moeda estrangeira.

Às vezes, certos romanos levam a sua técnica, de forma isolada, através da fronteira. No sudeste da Alemanha, arqueólogos encontraram peças de cerâmica que devem ter sido feitas por algum oleiro romano radicado nessa região. Ninguém sabe se o artesão foi raptado, ou se apareceu por livre e espontânea vontade. Se era um aventureiro, um apaixonado ou um soldado de fronteira desertor - que aproveitou seus conhecimentos para ingressar no mundo dos germânicos.

Os pesquisadores obtiveram muitas informações também na fronteira noroeste de Roma: a Bretanha.

BRETANHA: A MURALHA DE ADRIANO

"O imperador veio". Na primavera do ano 122, a notícia corre a Bretanha como um rastilho de pólvora. Entre os camponeses, arrendatários e trabalhadores do campo ela provoca espanto. Nunca um imperador visitou a província mais distante do Império. Todos querem vê-lo, e se apressam em seguir para o litoral, onde o soberano deverá aportar. Mas há quem se poste à margem das estradas que conduzem ao norte.
Adriano, o ilustre visitante, viaja com grande séquito: mil soldados de elite da guarda pretoriana, arquitetos, artistas e estudiosos, atores e gladiadores. Alguns são até famosos. Chama a atenção, mais do que tudo, o presente que ele trouxe da Baixa Germânia, e que entrega solenemente ao governador da Bretanha, Quintus Pompeius Falco: uma legião completa - 5.500 guerreiros fortemente armados. Eles devem ajudar a defender a fronteira mais ao norte de Roma - conquistada 80 anos antes - contra tribos escocesas das Terras Altas.

Isso ocorre no âmbito de uma nova doutrina militar: também na Bretanha o prioritário não é mais a expansão do império, mas a manutenção, sob a Pax Romana, do que foi conquistado.

Mas o cordão - um tanto frouxo - de fortificações, inspecionado agora detalhadamente por Adriano, não basta para assegurar esta estratégia. Ele ainda funciona de acordo com o dispositivo antigo: fronteiras provisórias demarcadas por pontos de apoio, mantidos apenas até que a próxima ofensiva romana amplie a região do Imperium, avançando pela terra dos bárbaros.

Os comandantes têm um mau pressentimento. Embora o imperador tenha feito muitos elogios durante as últimas manobras, ele também criticou o fato de o luxo estar se instalando entre os legionários que servem no estrangeiro. Salas de refeição, jardins e arcadas, a fim de chegar com os pés secos ao pátio de exercícios - um acampamento de legionários não era lugar para isso tudo!

Adriano pretende enfrentar o "amolecimento" da tropa com novas tarefas. Doravante, anuncia ele, um muro com quatro metros e meio de altura deve separar os romanos dos escoceses - e os próprios legionários o construirão.

Tecnicamente isso não constitui problema, uma vez que - diferentemente de nossos exércitos modernos - os soldados romanos estão acostumados a criar sua infraestrutura com as próprias mãos.
Eles constroem acampamentos, fazem pontes sobre os rios, queimam tijolos e misturam opus caementicium - o "concreto" romano, que une as pedras com mais firmeza do que grampos de ferro seriam capazes de fazê-lo. A muralha deverá se estender por 80 milhas romanas, aproximadamente 120 km. Quase quatro milhões de toneladas de pedras serão trazidos por carros de boi. A base do muro deve ter três metros de espessura; e seu topo, um caminho estreito coroado de merlões. O lado externo do muro, voltado para o norte, será pintado de branco.


Intransponível o Limes não era, pois em muitos lugares
apenas valetas, e paliçadas protegiam o Imperium.
Em postos de fronteira (aqui uma reconstrução) comerciantes
pagavam uma taxa alfandegária para passar com o gado.

Que os soldados consideram o esforço exagerado pode-se deduzir do fato de eles - mal o imperador regressa a Roma - reduzirem a espessura do muro de três para dois metros. Mesmo assim, transcorrem seis anos até que a "muralha de Adriano" possa ser considerada pronta.

A cada milha romana (cerca de 1,5 km) abre-se na muralha um portão. Atrás dele se encontra uma minúscula fortificação (chamada, em inglês, de milecastle), com 60 metros quadrados de área, que controla um acesso por terra para a província.

Assim o imperador ordenou, e assim acontece. Os destacamentos de construção não levam em consideração caminhos já existentes ou as condições topográficas. O esquema "a cada milha um portão" é mantido mesmo em lugares onde não faz sentido - como, por exemplo, na borda dos penhascos de basalto de Cawfields. Em um único caso os romanos deixaram de fazer o portão, ainda que não a praça fortificada. O portão abriria para uma escarpa vertical de 10 metros.
A Muralha não deve impedir o comércio com os povos das Terras Altas. Oitenta passagens ao longo de 120 quilômetros permitem a troca de mercadorias, controlada por guardas e publicanos alojados em 158 torres de observação. No total, 9 mil soldados devem ser destacados para o serviço na fronteira - bem poucos para defender a muralha em caso de necessidade.

Que os romanos se sentiam bem seguros é mostrado pelos encanamentos de água instalados ao norte da Muralha de Adriano, em área "inimiga", com a função de abastecer os acampamentos mais ao sul. Os romanos estão seguros de si: por que os nativos, jocosamente chamados de brittunculi (pequenos britânicos) iriam descartar a generosa oferta de coexistência pacífica com a maior potência da Antiguidade?

Achados espetaculares ocorridos na fortificação de Vindolanda (hoje Chesterholm), em 1973, revelaram detalhes da vida dos soldados. Nesse lugar foram encontradas mais de mil tabuinhas com inscrições a tinta - usadas no lugar do papiro, caro demais. As tais tabuinhas continham cartas cotidianas, ordens, relatórios. Tudo redigido em um latim parcialmente simplificado, com o qual se comunicavam as tropas lá estacionadas, compostas de batavos germânicos (vindos dos Países Baixos), panônios (originários da Hungria) ou celtas romanizados da Récia (no sul da Alemanha).

Um de seus comandantes se chama Flavius Cerialis. Suas atividades diárias quase não diferem do serviço em guarnições de exércitos modernos.


A 200 metros do Limes erguia-se no Taunus, uma cadeia de
montanhas alemãs, a fortificação de Saalburg. No vicus à sua
volta residiam os artesãos e as famílias de soldados; viajantes
descansavam na pousada e nas termas (à frente, esquerda).


Reconstruções fiéis aos detalhes comprovam:
no Reno e no Danúbio, contrabandistas não
tinham chance contra os patrulheiros romanos.

Um soldado de nome Messicus pede transferência para a cidade maior mais próxima; um oficial intervém a favor da promoção de um camarada, e o decurio (sargento) de uma divisão da cavalaria informa a necessidade urgente de fornecimento de cerveja. As senhoras dos oficiais enviam convites mútuos de aniversário. Recém-chegados perguntam pelos melhores bares; e alguém agradece o recebimento de um pacote com meias quentes e ceroulas, que o ajudarão a suportar o clima da fria Bretanha.

Todo o resto se obtém na vila do acampamento. Graças ao alto poder aquisitivo dos soldados, integrantes de um grupo profissional dos mais bem pagos do Império Romano, em torno de cada fortificação logo se desenvolve uma vicus - como é chamada uma colônia. E esse povoamento tem tudo o que alegra soldados longe de casa: adivinhos e sacerdotes para conduzir sacrifícios, ferreiros e comerciantes, dançarinas e prostitutas. Há restaurantes, casas de jogo, oficinas. No anfiteatro da guarnição se apresentam gladiadores. Um oásis do luxo que existe por trás da muralha de pedra, que durou quase 300 anos na Bretanha.

Uma única vez, tribos das Terras Altas penetram pela Muralha de Adriano, invadindo o Império. O ataque, aparentemente muito bem planejado, ocorreu no ano 180.
Não sabemos por que não foi dado nenhum alarme. Talvez os guerreiros britânicos tenham cruzado a fronteira disfarçados como simples visitantes. Eles teriam avançado em seguida, de forma inesperada - e a partir do sul -, sobre duas fortificações guarnecidas por 500 homens cada uma. O alvo dos atacantes era um depósito de mantimentos a seis quilômetros de distância da muralha, que saquearam. Somente após a convocação de duas legiões, que apareceram vindas de York e de Chester, os homens da Terra Alta foram repelidos, para além da Muralha de Adriano.

Ao que tudo indica, o governador romano Pompeius Falco suspeitava da vulnerabilidade que as passagens da muralha - nos milecastles - representavam. Ele mandou reduzir o tamanho desses acessos, de modo a ser possível apenas a passagem de transeuntes. E com isso demonstrou que não pretendia desistir totalmente dos visitantes vindos do Barbaricum.

FRONTEIRA DO DANÚBIO: O LIMES MOLHADO

Em Carnuntum - atual município de Petronell, na chamada Baixa Áustria -, o controle de fronteira é mais simples. Os procedentes do Barbaricum que desejam alcançar a metrópole romana tem, primeiro, que atravessar, diante da cidade, o Danúbio - o "Limes molhado", que no século 2º depois de Cristo formava por 2.400 quilômetros a fronteira do Império Romano, desde Kelheim, na Baviera, até o Mar Negro.


Entre Kelheim e o delta, no Mar Negro, os romanos aproveitaram o Danúbio
como fronteira natural. O curso do rio também serviu como rota comercial:
em suas margens floresceram cidades como Viena, Budapeste e Belgrado.

Na vida de um germânico, já a simples travessia para Carnutum deve ter sido um apogeu: 50 mil pessoas se aglomeram aqui - ao passo que a uma pedrada de distância, na margem norte, lugarejo algum conta com mais de poucas centenas de habitantes.

As condições para a Pax Romana são ideais na região: o rio todo, inclusive seus afluentes, é dominado pelos navios do Imperium. A partir dos acampamentos das legiões de Vindobona (Viena), Brigetio (Komorn), Aquincum (Budapest) e Singidunum (Belgrado) se desenvolvem cidades florescentes. Mas nenhuma delas é tão magnífica quanto Carnuntum.

Em sua guarnição estão estacionados 10 mil soldados, e o porto é o quartel general da frota romana do Danúbio. Aqui também se cruzam a rota comercial para Aquileia, no Mar Adriático, e a estrada leste-oeste, que vai de Augsburg a Budapeste. Mas nada é tão importante quanto o fato de a cidade se incluir no traçado da chamada "Estrada do Âmbar", que leva do Mar Báltico ao Mediterrâneo.

Âmbar. Para as altas camadas sociais romanas, esse material misterioso e transparente é o ápice do luxo. Os romanos sabem que ele se forma do "suco das árvores". Mas acreditam que a resina desse arvoredo, existente em ilhas distantes no Mar ao Norte, pinga diretamente sobre o oceano, sofrendo um processo de mutação. O material milagroso e exótico é aproveitado em joias, adereços de cabelo e amuletos. Também é tido como remédio excelente contra doenças de garganta, das orelhas e dos olhos. Um pequeno retrato cinzelado em âmbar, relata o escritor Plinius, tem o mesmo valor de um escravo. O estudioso conta sobre um nobre romano que, a serviço do imperador Nero, cavalgou 900 quilômetros entre o Danúbio e o Mar Báltico, para reunir quantidades imensas de âmbar. Uma das peças que ele levou para Roma pesava quatro quilos.

Não é de se admirar, portanto, que Carnuntum se transforme em uma das vitrines mais ostentosas da civilização romana. O que será que um bárbaro sente chegando à metrópole, diante desse esplendor que ele nunca imaginou fosse possível existir? Nas ruas pavimentadas, seguem-se as carroças; sob as arcadas se enfileiram locais que servem refeições ao lado de lojas. Pousadas e termas atraem os visitantes. No "Pfaffenberg" erguem-se os templos dos romanos - construções grandiosas com pórticos altos e colunas de mármore. Dos altares sopram nuvens adocicadas de incenso ou o cáustico cheiro queimado de uma ovelha sacrificada. E tudo brilha colorido, em tons ofuscantes de verde, vermelho e azul. Todas as estátuas estão pintadas; inúmeras obras de imperadores e cônsules mergulhadas, de cima abaixo, em tinta.

Talvez o visitante traga uma recomendação, tenha sido convidado para a cena (ceia) ou para um symposium (festim) na casa de um rico mercador. Nesse caso, ele entraria em uma das vilas da cidade, perfeitamente comparável às famosas de Pompeia: as paredes enfeitadas de afrescos, os aposentos agradavelmente aquecidos com calefação sob os pisos, e à noite iluminados por lâmpadas a óleo.

Com os outros convidados, ele toma lugar em um canapé, sendo o número dos participantes do evento nunca inferior ao número das Graças (três) ou superior ao das Musas (nove).

O banquete oferece os prazeres da cozinha romana: carne e pescado são regados com garum, um molho feito de cavalas fermentadas e outros peixes, servido com pãezinhos recheados de uvas passas. O vinho só é colocado na mesa após a refeição; determinar sua mistura, geralmente uma parte de vinho para duas de água, é tarefa do anfitrião. No dia seguinte, talvez, uma apresentação de luta em cenário grandioso: o anfiteatro de Carnuntum, que comporta quase 15 mil espectadores. Ou então uma visita ao circus, o circuito para as corridas de bigas, cercado por tribunas de madeira..

O historiador Tácito descreveu o efeito que uma cidade pode ter sobre "pessoas não civilizadas com tendência beligerante": assim que o bárbaro se rendia a seus "vícios tentadores, salões de colunas, banhos e ceias seletas", nunca mais queria desistir disso e se tornava pacífico - desde que pudesse ficar.

Mas, na maioria das vezes, não lhe era permitido ficar. Do ponto de vista dos cidadãos romanos de Carnuntum, o lugar legítimo do bárbaro era além do Danúbio.

Uma fronteira no sentido do direito das gentes, passando exatamente no meio do rio, como no nosso tempo - isso o Danúbio nunca foi para os romanos. Por outro lado, considerar as tribos do Norte como parceiras políticas e detentoras de direitos iguais, nunca passaria pela cabeça de qualquer imperador ou general romano.


Em Hainburg, na parte em que o Danúbio corta a
Áustria historiadores avaliam achados de Carnuntum,
desde encanamentos até o sistema de aquecimento do piso.

O Danúbio só é fronteira para os outros. A partir de sua margem sul reinam a lei e a ordem romanas, e quem quiser permanecer lá por algum tempo - visitar os mercados e negociar neles -, deverá ter algo bem interessante a oferecer, ou possuir boas relações com os funcionários locais.


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Um comentário:

Cristina Ana disse...

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